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domingo, 17 de abril de 2016

Conflito agrário: 20 anos após massacre, tensão persiste em Eldorado dos Carajás

Passadas duas décadas do massacre em que 19 trabalhadores sem-terra foram mortos pela Polícia Militar, a região de Eldorado dos Carajás, no sudeste do Pará, volta a ser o centro das atenções da comunidade internacional dedicada à luta no campo e permanece uma das áreas de maior tensão no meio rural brasileiro.

Como em todos os anos, as 690 famílias sobreviventes que hoje vivem no assentamento 17 de abril participam de um ato ecumênico na curva do “S”, na BR-155, onde ocorreu o massacre. Lá, 19 castanheiras foram plantadas em homenagem às vítimas da chacina.

Este ano, juntam-se a eles dezenas de representantes de movimentos em defesa da reforma agrária que vieram de países da África, Ásia, América Latina e Europa. “Eldorado dos Carajás é um evento emblemático para a comunidade internacional que luta pela reforma agrária, que abriu nossos olhos para a necessidade de globalizar a luta”, disse Faustino Torrez, da Asociación de Trabajadores del Campo (ATC), da Nicarágua.

A grande comoção mundial gerada pela dramaticidade do massacre - no qual os legistas apontaram a ocorrência de execuções à queima roupa de camponeses, além de trabalhadores mutilados após serem perseguidos pelos policiais até as barracas nas quais acampavam à beira da estrada – levou o dia 17 de abril a se tornar o Dia Internacional de Luta no Campo.

O ato realizado neste domingo pede também pelo fim da impunidade no campo. Até hoje, dos 154 policiais militares denunciados pelo Ministério Público, apenas dois foram condenados por homicídio doloso e encontram-se presos, o coronel Mário Collares Pantoja e o major José Maria Pereira, que comandaram a ação no dia do massacre.

A falta de punição dos envolvidos é apontada como uma das principais razões pelas quais a região de Eldorado dos Carajás continua entre as mais tensas do campo brasileiro. De acordo com um levantamento feito pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), dos 846 assassinatos registrados na região entre 1980 a 2014, apenas 293 tiveram inquérito policial instaurando. Desses, 62 pessoas foram levadas a julgamento.

“O massacre acabou estimulando ainda mais a luta dos camponeses na região pela disputa da terra. Por outro lado, também resultou numa continuidade da situação de violência. Apenas após o massacre, de 1996 para cá, a CPT registrou 271 assassinatos de trabalhadores rurais no estado do Pará, sendo a maioria absoluta nessa região do sul e sudeste do estado”, disse João Batista Afonso, coordenador da área jurídica da Pastoral em Marabá, maior cidade da região.

Segundo a CPT, existem no momento 130 fazendas ocupadas por acampamentos do MST no sul do Pará. Enquanto algumas dessas ocupações foram montadas nos primeiros meses deste ano, outras já completam duas décadas sem que se tenha sido resolvido o impasse pela disputa de terras. Estima-se que proximadamente 14 mil famílias estejam acampadas ou aguardando por assentamento na região.

Para o procurador do Ministério Público Federal Felício Pontes, que há mais de uma década atua na conciliação de conflitos no Pará, a tensão na região é resultado do modelo de desenvolvimento implantando nos arredores de Eldorado dos Carajás, baseado na extração mineral.

“Com essa crise econômica, agravada pela queda do preço das commodities minerais, diminuiu muito a produção e houve uma retração na economia dessa região”, disse Pontes. Com isso, as pessoas que chegam em busca de emprego e não conseguem voltar buscam sobrevivência em terras públicas, muitas vezes reivindicadas por posseiros. “Enquanto persistir esse modelo, a violência vai continuar”, avaliou.

Fonte: AB

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Igreja promove baile especial para surdos no Rio de Janeiro


O gari Aleandro Lopes é daqueles que dança conforme a música. Mas só quando a pista está bombando mesmo. Vítima de meningite na infância, ele perdeu a audição, mas não o rebolado. E, sem a vassoura, passou a riscar os salões na companhia da potência das caixas de som, de preferência no volume máximo. A última vez foi no primeiro Baile para Surdos, em Sulacap, onde o público entrou num só ritmo, o da inclusão social.

— Eu frequentava o baile funk do Grêmio de Realengo, mesmo sem ouvir nada. Ia com amigos, dois surdos e o resto ouvinte. Lá, ficava juntinho das caixas de som. A roupa mexia, e eu dançava — gesticula em Libras Aleandro, a sua língua oficial.

Aos 34 anos, Aleandro quis sentir novamente a vibração das ondas sonoras de cada música no Baile para Surdos, promovido pela Igreja Batista Betânia. Fã de forró atualmente, chegou com a mulher, a operadora de máquina Zaira Moraes, de 37 anos, surda de nascença. Usando um aparelho auditivo, ela conta que a mãe teve rubéola durante a gravidez.

— Me senti ótima aqui. Deu até para lembrar os velhos tempos. Eu frequentava pagode e forró. E dançava em festas de casamento — disse Zaira, grávida de 8 meses.

Já a dona de casa Areta Rocha Vieira, de 30 anos, vibrava a cada música, é claro. Portadora de um marcapasso, o coração dela também pulsou na frequência do som. E de felicidade, já que ela, surda, tinha vergonha de dançar na frente dos outros:

— É a primeira vez que danço em uma festa. Nos casamentos eu só fico sentada. Acho que as pessoas me olham com preconceito (devido à surdez).

O namorado, Leonardo Dias, de 22 anos, nem esquenta. Com o preconceito.

— As pessoas olham e riem. Já aconteceu de me verem dançando em um casamento e balançarem a cabeça negativamente. Mas eu não ligo para isso — conta ele.

Funcionária de uma fábrica, Priscila Rodrigues, de 26 anos, também não. De calça jeans, blusa rosa e bolsa trançada no corpo, ela tascou na boca a mistura do batom vermelho com o rosa e chegou no baile disposta a balançar o corpo na pista de dança. E também o coração:

— Nunca fui a um baile. Só dancei em festa de aniversário. E sei que a pista está bombando quando a vibração da música fica forte. Mas queria um namorado.

DJ surpreso com convite

O público do baile chegou a um espaço anexo à igreja quase que falando pelos cotovelos. O “bate-mão” (sinônimo de bate-papo) só silenciou quando o DJ Fagner Henrique, de 27 anos, começou a tocar. Música eletrônica, de preferência, como a de David Guetta.

Apesar da experiência em festas de aniversário, Fagner balançou quando ouviu, em alto e bom som, o convite da igreja, o de tocar para quem não ouve nada.

— Contei para alguns amigos, e eles me perguntaram se faria mímicas. Mas escolhi as músicas que têm mais grave e, quando vi eles dançando, fiquei surpreso. Agora, como fazem para traduzir a música para a emoção, eu não sei explicar — admite.

Responsável pelo baile, a sanitarista Aline Albuquerque, de 30 anos, sabe. Integrante do Ministério Efatá, que trabalha na igreja com ações sociais para pessoas com deficiências, ela conta que o grupo percebeu a necessidade de promover um lazer saudável para os surdos, “livrando eles do uso de drogas ou de bebidas”.

— A ideia é colocar o som no grave para aumentar as ondas de vibração. Eles sentem a vibração, captam o ritmo e dançam — disse Aline.

Das seis caixas grandes e amplificadas, algumas foram viradas para as paredes. Outras, aumentavam o impacto da música viradas para o chão, em cima de tablados.

Mas o baile, gratuito, não é gospel. Ao contrário, está aberto a todas as religiões. E a paquera é permitida.

Fonte: O Verbo